Acervo híbrido: a biblioteca universitária entre o papel e a tela

07 setembro 2026 |

 


Durante muito tempo, discutir o futuro das bibliotecas universitárias significava perguntar se o livro físico seria substituído pelo digital. Hoje, essa pergunta parece cada vez menos relevante. O verdadeiro desafio é outro: como oferecer aos estudantes acesso ao conhecimento de maneira compatível com uma educação que se tornou mais flexível, conectada e diversa?


Minha avaliação é que o acervo híbrido deixou de ser uma alternativa interessante para se tornar uma decisão estratégica. Preservar livros impressos ao mesmo tempo em que se amplia o acesso a conteúdos digitais não representa resistência à tecnologia nem abandono da tradição. É reconhecer que diferentes momentos da formação exigem diferentes formas de acesso.


A bibliografia básica e complementar de cada curso integra o Projeto Pedagógico de Curso e é diretamente avaliada pelo INEP, por meio dos indicadores 3.6 e 3.7. Isso significa que o acervo não é apenas um serviço de apoio: é parte constitutiva da qualidade formal do curso, com peso direto no CPC e no IGC da instituição. Quando uma IES amplia seu acervo digital para cobrir lacunas bibliográficas em disciplinas específicas, ela não está apenas facilitando o acesso, mas fortalecendo seu próprio indicador de qualidade. 


O estudante de hoje não necessariamente estuda no campus, em horário comercial ou diante de uma estante. Pode estar em casa, no trabalho, em outra cidade ou entre uma atividade e outra. Isso não exclui  o livro impresso, muito pelo contrário: bibliotecas continuam sendo espaços de concentração, pesquisa e convivência. O livro físico e digital podem cumprir funções diferentes e, justamente por isso, funcionam melhor juntos. 


Plataformas como a Minha Biblioteca ajudam a colocar essa lógica em prática ao ampliar o acesso a conteúdos acadêmicos digitais e complementar a coleção física das instituições. O ponto, porém, não é simplesmente oferecer mais uma plataforma ao estudante. É fazer com que o conteúdo digital tenha presença real na jornada acadêmica.


Esse é, na minha visão, o principal desafio. Tecnologia sem estratégia vira apenas infraestrutura subutilizada. Para gerar impacto, professores precisam incorporar os recursos às atividades, os bibliotecários devem atuar como mediadores e gestores acadêmicos precisam acompanhar o que efetivamente contribui para a aprendizagem.


O futuro da biblioteca universitária, portanto, não será definido pela quantidade de livros nas estantes nem pelo tamanho de seu catálogo digital. Será definido pela capacidade de conectar conteúdo, tecnologia e pessoas. Isso exige uma mudança de olhar: a biblioteca precisa deixar de ser vista apenas como infraestrutura e passar a ser compreendida como parte da estratégia de aprendizagem. Quanto mais integrada ao projeto pedagógico, às necessidades dos estudantes e à atuação dos professores, maior será sua contribuição para a formação acadêmica.


A universidade não precisa escolher entre o livro impresso e a tela. Precisa entender que a formação acadêmica exige os dois e que integrá-los bem é o que faz a diferença entre ter um acervo e ter uma estratégia de acervo. O modelo híbrido não representa o fim da biblioteca tradicional, mas sua evolução. O desafio agora é fazer com que essa combinação deixe de ser apenas uma solução tecnológica e se transforme, de fato, em uma ferramenta para ampliar o acesso, estimular o aprendizado e aproximar o conhecimento da realidade de cada estudante.


Adriano Girelli é Gerente de Acervo na Minha Biblioteca, responsável pela curadoria de conteúdo e desenvolvimento de soluções pedagógicas, atuando diretamente no suporte às IES.  


Por Adriano Girelli

*Gerente de Acervo da MB


Foto: Divulgação/Minha Biblioteca

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