Pensar a aposentadoria como um novo caminho de oportunidades e possibilidades. Esta deveria ser a mentalidade de quem está prestes a caminhar o campo da longevidade. Porém, isso não acontece com todo mundo e, daí, surgem os conflitos com os quais o longevo e a família precisarão conviver e, todos os dias, encarar situações e episódios ocasionados por situações diversas e adversas.


Frente à esta realidade, a psicóloga Rosemary Adriani, de São Paulo, surge no mercado como um anjo para orientar tanta gente por aí que se depara com esta questão, constantemente.


Hoje o CULTURA VIVA conversou com ela e a profissional deu uma aula sobre o assunto a partir do livro que acaba de lançar, " “Aposentadoria Consciente e Saudável — Destravando ações eficientes para um planejamento eficaz!”. 


Acompanhe!


CULTURA VIVA: Com cerca de trinta anos de experiência como psicóloga, só agora decidiu escrever sobre o tema "aposentadoria" ou já era um desejo antigo? 

ROSEMARY ADRIANI: Acredito que esse desejo foi sendo construído ao longo da minha trajetória profissional, mas, também, e especialmente, a partir da minha própria história familiar. Sou filha temporã e tive o privilégio de acompanhar diferentes gerações da minha família vivenciando o envelhecimento e a aposentadoria. Observei meu pai, minhas irmãs e meus cunhados atravessando essa etapa da vida, cada um com suas experiências, escolhas, desafios e possibilidades. Essas vivências despertaram em mim um olhar mais sensível e generoso para a longevidade. Percebi que envelhecer não significa apenas acumular anos, mas também histórias, aprendizados, sonhos e oportunidades de reinvenção. Parte dessa experiência também está presente no livro *Jornada das Gerações — Entre Valores, Sonhos e Conexões*, do qual sou coautora ao lado de outras 20 vozes, entre elas, a do meu filho, de 16 anos. Uma experiência muito especial, que reforça minha crença na riqueza das conexões entre gerações. Assim, a escrita sobre aposentadoria surgiu do encontro entre minha experiência de vida e minha atuação como psicóloga. Afinal, acredito que **a aposentadoria não representa o fim da nossa história, mas a oportunidade de escrever novos capítulos.



C.V.: O que mais a motivou a falar sobre o assunto neste momento? Algo em específico?

R.A.: Minha maior motivação nasceu dentro da minha própria família. Tive a oportunidade de observar experiências bastante diferentes. Meu pai vivenciou a aposentadoria sem um planejamento estruturado, enquanto minhas irmãs e meu cunhado puderam se preparar para essa transição, construindo caminhos que lhes permitiram viver e contemplar essa nova fase com mais harmonia, autoconhecimento e sabedoria. Essas experiências me fizeram compreender, de maneira muito concreta, a diferença que o planejamento pode fazer na vida de uma pessoa. Percebi que preparar-se para a aposentadoria vai muito além das questões financeiras. Envolve reconhecer desejos, fortalecer vínculos, cuidar da saúde emocional e descobrir novos significados para a própria existência. Foi justamente esse contraste de experiências que despertou em mim uma vontade ainda maior de contribuir para que outras pessoas possam fazer escolhas mais conscientes. Como psicóloga, compreendi que poderia transformar essas vivências em conhecimento, reflexão e ferramentas práticas. **Se podemos nos preparar para tantas etapas importantes da vida, por que não nos prepararmos também para viver bem a longevidade?**



C.V.: Em sua opinião, por que a longevidade assusta boa parte da população?

R.A.: Acredito que, o que mais assusta, não é, necessariamente, viver mais, mas não saber como viver esses anos adicionais. Ainda carregamos muitos preconceitos relacionados ao envelhecimento. Existe o medo da dependência, da solidão, das limitações físicas, das perdas e da sensação de não ser mais útil à sociedade. Além disso, fomos educados para estudar, trabalhar e produzir, mas pouco estimulados a refletir sobre como desejamos viver as próximas etapas da vida. Costumo provocar uma reflexão: **não basta acrescentar anos à vida; precisamos acrescentar vida aos anos.**. A longevidade precisa ser compreendida não apenas como um desafio, mas, também, como uma conquista que exige planejamento, flexibilidade e abertura para novas possibilidades.



C.V.: Que orientação a senhora poderia dar para quem já está preocupado com a aposentadoria, no tocante ao temor com a ociosidade?

R.A.: Minha primeira orientação é: não espere a aposentadoria chegar para começar a construir sua vida além do trabalho. Muitas pessoas dedicam tantos anos à profissão que acabam deixando de cultivar interesses, amizades, hobbies e projetos pessoais. Quando a rotina profissional termina, surge um vazio que pode ser bastante desconfortável. Por isso, considero fundamental desenvolver o autoconhecimento e refletir sobre perguntas como: O que me dá prazer? O que gostaria de aprender? Quais sonhos ficaram pelo caminho? Como desejo contribuir nesta nova etapa? Também é importante compreender que descansar não significa ser improdutivo. O descanso é necessário, assim como o sentimento de pertencimento e propósito. **A aposentadoria não precisa ser um tempo vazio, mas um tempo de novas escolhas.**



C.V.: Qual o papel da família para saber lidar melhor com esta fase do aposentado?

R.A.: A família tem um papel fundamental, especialmente no acolhimento emocional e no respeito à autonomia de quem está vivenciando essa transição. A aposentadoria pode modificar a dinâmica familiar, a convivência e até a distribuição das responsabilidades dentro de casa. Por isso, o diálogo é indispensável. É importante que os familiares não tratem a pessoa aposentada como alguém que perdeu sua capacidade de decidir, produzir ou contribuir. Pelo contrário, é preciso reconhecer sua história, valorizar suas experiências e incentivar sua participação ativa nas decisões e nos projetos familiares. Também devemos respeitar a individualidade. A aposentadoria não significa que a pessoa deva estar disponível o tempo todo para atender às necessidades dos outros. **Apoiar não é decidir pelo outro, mas caminhar ao lado dele, respeitando suas escolhas e possibilidades.**



C.V.: Praticar esporte, dedicar-se aos trabalhos da igreja ou fazer cursos livres, como artesanato, por exemplo, são atividades capazes de apresentar um norte?

R.A.: Sem dúvida! Essas atividades podem contribuir significativamente para uma aposentadoria mais saudável, ativa e significativa. Entretanto, gostaria de destacar um aspecto fundamental: a importância das relações sociais e afetivas. Estudos sobre envelhecimento saudável apontam que manter vínculos significativos, cultivar amizades, participar de grupos e sentir-se pertencente a uma comunidade são fatores importantes para o bem-estar e a qualidade de vida. Um exemplo interessante são as chamadas **Zonas Azuis**, regiões do mundo que ficaram conhecidas pela presença de populações com elevada longevidade. Entre os aspectos frequentemente observados nessas comunidades estão os vínculos familiares, a convivência social, o movimento incorporado à rotina e o senso de propósito. Essas observações reforçam a importância de olhar para o envelhecimento de maneira integral, embora a longevidade também dependa de fatores genéticos, ambientais, sociais e de acesso à saúde. Praticar esportes, participar de atividades religiosas ou comunitárias, aprender algo novo e dedicar-se ao voluntariado são possibilidades valiosas, especialmente quando proporcionam prazer, conexão e significado. Mas, faço uma reflexão: **não basta preencher o tempo, é preciso dar sentido a ele**. Mais importante do que ter uma agenda cheia é construir uma vida com vínculos, autonomia, afeto e propósito.



C.V.: Como faria uma apresentação sucinta do seu livro “Aposentadoria Consciente e Saudável — Destravando ações eficientes para um planejamento eficaz!”?

R.A.: Meu livro é um convite para olhar a aposentadoria não como o fim de uma trajetória, mas como o início de um novo ciclo de possibilidades. A obra foi pensada para ser lida, refletida e, principalmente, vivenciada. Ao longo das páginas, apresento reflexões e atividades práticas, utilizando recursos da escrita terapêutica para estimular o autoconhecimento, a conscientização e o comprometimento com as próprias escolhas. Essa proposta também está presente em outra criação minha, o jogo de tabuleiro **Destrave Sua Chave®️**, uma ferramenta lúdica de desenvolvimento humano que utiliza a metáfora da vida como um grande jogo. Afinal, a vida é feita de escolhas, desafios, conquistas, mudanças de percurso e novas oportunidades. Nem sempre podemos escolher as cartas que recebemos, mas podemos refletir sobre como desejamos jogá-las. Acredito que podemos enfrentar os desafios da vida com mais leveza, descontração, consciência e assertividade. E a aposentadoria não significa sair desse jogo, mas descobrir novas maneiras de continuar participando dele. **Meu convite é justamente este: destravar possibilidades, ressignificar caminhos e continuar sendo protagonista do jogo da própria vida.**







C.V.: Que parte da obra destacaria por considerar de grande relevância?

R.A.: Destacaria especialmente as reflexões sobre autoconhecimento e propósito de vida. Acredito que um dos maiores desafios da aposentadoria seja compreender quem somos quando deixamos de exercer o papel profissional que nos acompanhou durante tantos anos. Muitas vezes, nossa identidade fica tão associada ao trabalho que temos dificuldade de reconhecer nossas outras potencialidades. Por isso, considero essencial incentivar o leitor a revisitar sua história, reconhecer suas conquistas, identificar seus valores e descobrir novos caminhos. Gosto muito da ideia de "destravar", presente no título do livro. Destravar pensamentos, crenças limitantes, medos e comportamentos que nos impedem de avançar. **Não podemos mudar o tempo que passou, mas podemos transformar a maneira como escolhemos viver o tempo que temos pela frente.**



C.V.: Já ouviu relatos interessantes sobre esta produção?

R.A.: Sim! E são justamente essas experiências que reforçam o sentido e o propósito do meu trabalho. Utilizo meu livro *Aposentadoria Consciente e Saudável* como uma das ferramentas nos Programas de Preparação para a Aposentadoria (PPA), integrando suas reflexões e atividades práticas às vivências realizadas com os participantes. Recentemente, durante um PPA coletivo, uma participante compartilhou suas inseguranças diante da aposentadoria. Ela já estava elegível para se aposentar e tinha um novo projeto de vida em vista, mas ainda carregava medos e dúvidas sobre como seria sua vida além do crachá, depois de tantos anos dedicados à carreira. Algum tempo depois, ao retornar à mesma instituição para conduzir um novo grupo, tive uma surpresa muito especial: reencontrei essa participante, que veio ao meu encontro com um abraço cheio de alegria. Contou-me que se aposentaria no mês seguinte e que agora se sentia muito mais confiante, tranquila e feliz com sua decisão. Foi um momento emocionante! Perceber que as reflexões propostas no livro, associadas às vivências do programa, contribuíram para que ela ampliasse seu olhar e se sentisse mais segura em suas escolhas é extremamente gratificante. Esse relato traduz a essência do que acredito e busco compartilhar por meio da minha obra: **é possível fazer escolhas conscientes, enfrentar os medos e viver bem cada nova etapa da vida**. Afinal, a aposentadoria não precisa representar a perda de uma identidade, mas a oportunidade de reconhecer que somos muito mais do que nossa profissão. **O crachá pode ser deixado para trás, mas nossa história, nossos sonhos e nossa capacidade de construir novos caminhos continuam conosco.**



C.V.: Quais são as suas redes sociais?

R.A.: Meu Instagram é **@rosemaryandriani**, onde compartilho reflexões e conteúdos sobre saúde mental, desenvolvimento humano, longevidade, autoconhecimento e qualidade de vida.



Fotos: Divulgação


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